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Eu pássaro. Eu peixe. Eu flor e eu, também, às vezes gente.




Procuro, insistente, deixar um marco, o meu registro. Algo como se fosse: “Hei! Também estive aqui! Aqui vivi, compus, sonhei, cantei e vivo ainda.
Eu pássaro. Eu peixe. Eu flor e eu, também, às vezes gente. Eu, gente às vezes…
O resto não importa. Não passa de ilusão.
É noite. No silêncio do quarto ecoa seco, o ruído das teclas no papel, das frases rápidas que nascem e tingem com significados a folha em branco.
A madrugada se aproxima e eu me preparo. De novo sigo em busca do momento que torno a pressentir…e amanhece! E é isto, apenas, o que me vem da vida, do rio e da cidade: (da qual eu sinto, num vislumbre, todo o peso dos 323 anos que também vivi.) A vida que flui de mim a cada aurora.
De mim, Ludmila, nesta Jacareí.
(Ludmila Saharovsky em 1975)

Noites



Há noites que eu não posso dormir 

de remorso por tudo 

o que eu deixei de cometer. 

Mário Quintana


Todas . . .



Todas as noites ela vestia suas roupas de fada e deslizava, leve, pelos bosques de concreto e vidro, até encontrar o quarto onde seu amado dormia. Recitava, então, baixinho, as estrofes do encantamento. Transformada em brisa, apossava-se suavemente dos recôncavos daquele corpo, adormecendo feliz. Então sonhava. Sonhava que despia suas roupas de fada…
(Ludmila Saharovsky)



  De sua solitária ilha, todas as tardes, a mulher enviava mensagens em garrafas atiradas às ondas, na esperança de que fossem encontradas e respondidas.
A maré, no entanto, insistia em devolvê-las intactas.
Então resolveu: ela mesma escreveria as respostas e as entregaria ao mar.
Sentada na praia, o olhar perscrutando o oceano, ela aguarda, ansiosamente, pela próxima correspondência trazida pelas águas.
(Ludmila Saharovsky)