Nasci

“Nasci dura, heróica, solitária e em pé. 
E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. 
A feiura é o meu estandarte de guerra. 
Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. 
Eu – eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. 
O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim.
Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. 
Sou uma árvore que arde com duro prazer.
 Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo. 
Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. 
É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.”
Clarice Lispector (1920-1977)




Por trás...


Por trás de grossas lentes
Os olhos da casa, impassíveis,
Observam a rua.
(Ludmila)

Desvio


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira, in “Infinito Pessoal”

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)

Por amor


"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
(Friedrich Nietzsche)


As flores sempre foram cortejadas pelos colibris...

Algumas se deixam enamorar mesmo sabendo que eles são de efêmero voo, levitavam aqui e acolá mas não pousam, como bolhas de sabão: voam em leveza, mostram suas cores e se desfazem. Antes de partir, brincam nos lugares doces das flores com seus longos bicos, ambos vivem o instante mágico do prazer, cumprindo o instinto natural do mundo.

Mas há uma espécie rara de flor, que se mantém comedida nas ofertas de amor desses pássaros mágicos. Temerosa, finca profundamente suas raízes no chão.  A essência dela é deixar-se colher tão somente pelo habilidoso jardineiro que conquistar sua confiança, podar os espinhos, dar importância ao orvalho que em silêncio a visita e que souber despertar dentro dela a mais linda primavera. E não se importa se muito tempo após ser colhida, ele irá esquecê-la num vaso de cristal sobre a mesa, pois inconscientemente ela sabe que basta abrir uma janela para ser visitada por algum colibri atencioso...

Voz



A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
(Fernando Pessoa, Reticências)